
Na infância, minha personagem preferida dos desenhos era She-ra. Motivos óbvios: ela salvava Ethéria todos os dias e ainda podia voar num unicórnio alado.
Tudo era possível quando a princesa Adora erguia a espada e gritava que era She-ra, pela honra de Grayscull.
Pois hoje vivi meu dia de guerreira e heróina no caos que é a Ethéria brasileira. Conheci a Josiane, uma dona de casa de 32 anos e quatro filhos. Um deles, o Lukas de 3, foi diagnosticado como autista.
A Josiane não deixa o Lukas sozinho nenhum instante e por isso teve de abandonar o emprego. Ganha 60 reais do bolsa família e a ajuda da mãe para alimentar os moleques. Pra melhorar a renda solicitou ao INSS a prestação de assistência permanente destinada a pessoas carentes com deficiência, mas contra todo discurso social, o benefício foi negado.
A história chamou a atenção da TV porque Josiane telefonou e leu a decisão que dizia que o filho não era incapaz de ser independente e de trabalhar. Esse é um texto padrão, mas nosso editor entendeu que o INSS estava declarando que o menino de 3 anos era apto ao trabalho. Esse foi o motivo da nossa equipe ser pautada pra contar essa história.
Vi que o texto não era bem esse, mas decidi investir, porque ao chegar na casa de Josiane concluí que se aquela mulher não tinha direito ao benefício, ninguém mais teria.
Sei que a acompanhei até o INSS. Lá, a resposta é que o perito não tinha considerado a doença de Lukas grave. A família era pobre e carente, consentia a assistente social, mas a recusa era clínica. Pedi que ela gravasse essa resposta, ela decidiu pesquisar mais um pouco e foi consultar o perito. Para nossa surpresa, o perito disse que o quadro merecia o benefício sim.
Então o que teria acontecido? Foi a pergunta que fiz.
Erro no sistema, confusão ao se cruzar os dados da análise social e da doença.
Josiane e Lukas tinham direito a uma vida mais digna, mas um erro no sistema retardou a efetivação do benefício. Agora por que ninguém descobriu isso nas outras duas vezes em que a dona de casa buscou respostas? A negligência continuaria a perpetuar a mancada que só cedeu diante da canopla reluzende de meu microfone impertinente.
Diz se não é a própria espada mágica?
P A L H A Ç A D A...




