É passado, ficou há dois dias atrás, mas meu plantão ainda me impressiona.
Desde sábado, só fiz tragédia. Primeiro, foi a jovem de 25 ou 28 anos, não lembro, que tomou um tiro num peito, enquanto do outro amamentava a filha de 3 meses. Uma menina linda, a Nicole.
Da mulher, não lembro o primeiro nome, mas sei que era
Da Conceição porque relacionei com o seu maior desejo, mencionado pelo viúvo em choro — "ela sempre quis ter uma filha".
Olhei para a foto da mulher, em pose de modelo. Não era bonita, mas parecia feliz. Na casa de 3 cômodos, o armário de cozinha esperava as panelas que a dona não teve tempo de organizar.
O marido mostrava tudo, não sei pra quê, e abraçava a filha como se a criança ainda estivesse em risco, como se de uma hora pra hora, Nicole também pudesse morrer... Para ele, de quem não me lembro o primeiro nome, mas sei que o segundo era
Cândido — porque no início achei que ele fosse o alvo da bala, e portanto, de certa forma culpado pela sina, mas depois vi que o pobre só errou pela ingenuidade, de parar o carro no meio de um tumulto armado — para ele, qualquer coisa estaria sempre ameaçada.
Olhei para Cândido e me imaginei passando por isso. Não aguentei. Imaginei meu marido passando por isso, meu pai vivendo esse drama. Imaginei crescer como Nicole crescerá. Não deu pra colocar nada disso no off.
No domingo, fui a uma cidade pobre, registrar a morte suspeita de um bebê. A informação é de que o corpo estava na casa da babá, onde a criança de 40 dias morrera na madrugada.
Chegamos, e na varanda estavam Francisca, a babá, e Daiane, a mãe da criança. As duas fumavam e esperavam o IML. Desci perguntando se fazia tempo que tinham comunicado a morte. As duas disseram que sim, e me levaram para dentro. Outra vez, uma casa de 3 cômodos, contando com o banheiro. Nela moravam Francisca, quatro filhos e mais o João Gabriel, que passava a semana, enquanto a mãe dormia no trabalho, onde também era babá como Francisca.
Daiane tem 19 anos, mãe solteira, a família toda no Maranhão. Permaneceu calma quando o pessoal do IML chegou e um homem de luvas levou o bebê, segurando-o na vertical, pelos braços flexionados, com a toca amarela e envolto numa manta da mesma cor. Só deu pra ver a cabeleira escura. Daiane não derramou uma lágrima. Pegou o papel que seria necessário pra liberar o corpo e saiu, andando sozinha pela rua sem casas. A câmera a acompanhou um bom tempo. A cabeça baixa, e eu sei que não posso dizer isso, mas a sensação que tive foi que ela respirara com alívio.
Mal tive essa impressão, escuto um soluço atrás de mim. Francisca encostada na porta, tremia e chorava muito. As lágrimas fortes rolavam pelo rosto escuro e caiam nos seios fartos e livres dentro da camiseta cavada. Já vi gente chorando, e Francisca chorou como poucas mães. Tentei entrevistá-la e ela não conseguia responder. Sentou-se na cama, com as roupinhas do bebê de quem cuidara por uma semana em troca de poucos reais. Respondeu às perguntas que eu e outro colega fizemos, contou que deu leite ao menino, o fizera arrotar, colocou-o na cama, como fazia com os quatro e achou estranho, três horas depois ele nao acordar de novo. Quando viu, ele estava morto. Era um prematuro, nascido de 7 meses, que passara 20 dias internado com problemas respiratórios, mas era amado, amado por Francisca.
Mal fechara o texto, eis outro chamado. Acidente com duas mortes. Chego lá e as vítimas eram duas irmãs, de 8 e 11 anos. Chegamos quase que ao mesmo tempo dos pais. Um corpo, o da mais velha, já estava na calçada, sobre um papel branco e coberto. A mãe desesperada, retirou aquela mortalha, e abraçou a menina, meio que rolando com ela pelo chão. O sangue escorria da cabeça rachada que a mãe acariciava, ao gemer "minha princesa, minha princesa". O pai parecia drogado, olhava para mulher e não fazia nada. Corria da calçada para o carro, onde ainda estava o corpo da menor. Quando lembrava da caçula, a mulher voltava e entrava no que sobrou do gol quadrado e abraçava o corpo mole da menina, que só parecia dormir pesado.
Policiais que pareciam não ter idéia do que faziam ali, tentaram arrancar a mulher de dentro do carro. Ela gritava, esperneava, que queria as duas filhas juntas e os PMs puxavam-na pelo braço, pelo cabelo.
A cena bizarra ganhou novas tomadas até a chegada do IML. A irmã mais velha foi posta com papel e tudo dentro da gaveta. Da pequena, os pais não deixaram os recolhedores (? é esse o nome? ) se aproximarem. O próprio pai, o mesmo que permitira que as meninas saíssem com um amigo que vira encher a cara o dia todo, ergueu a caçula nos braços e a troxe para ao lado da irmã. A gaveta estava apoiada no carro, meio inclinada e muito vertical. O pai parecia ter medo de machucar o corpo sem vida. Hesitou e por fim colocou as pernas na gaveta e com as duas mãos tentou arrumar o corpinho. A mãe parecia querer ir junto com as filhas, entre outros cadáveres desconhecidos.
Também não consegui fazer o off que queria.